Literatura

Crônica: Em terra de corona, quem tem saúde é rei

Tempos malucos, esses. A sociedade virou pelo avesso? Uns diriam que sim, mas que situações que beiram o apocalipse, despertam nossa sensibilidade e capacidade de reflexão sobre nosso papel no mundo. Outros, nem tanto, que sempre fomos avessos ao bom senso e autodestrutivos por natureza. O fato é que criamos falsas verdades para nos aliviar do peso e da responsabilidade de transformar a sociedade em algo melhor.

A televisão virou a principal companheira?

Na verdade, ela sempre foi onipresente. Aquela conversa no trabalho ou na mesa do bar, de que “nem assisto mais TV, só vejo Netflix”, além de intrinsecamente incorreta, é pura conversa. Só para ser do contra. Chegando em casa, a TV praticamente se liga sozinha na Globo. Afinal, todo mundo precisa assistir o canal mais odiado para criticá-lo ainda mais: “Você viu o que o Bonner falou ontem? Que safado! Por isso que não vejo mais a Globo!”

Fora Globo?

Desde tempos imemoriais que os gritos de Fora Globo ecoam por aí. Na minha época de faculdade dizia-se que “a Globo manipulava a mente dos brasileiros”. Uma vez, na sala de aula, apresentei dois ingredientes para acabar com a manipulação: o dedo (qualquer dedo) e o controle remoto. Dois elementos capazes de deter qualquer plano macabro de controle mental através de novelas e telejornais. O silencio na sala foi ensurdecedor. Mal sabiam eles que eu estava emulando nosso professor de Cultura de Massa que havia lançado essa pérola discretamente e eu havia me apoderado.

O fato é que com Record e Globo, o último resquício de imparcialidade da imprensa foi definitivamente varrido. Empresas que de quatro em quatro anos definem qual caminho e qual discurso usarão para antagonizar-se e assim morder uma audiência maior. Sua postura editorial aprofunda cada vez mais a polarização da sociedade, especialmente em um momento “coronário” como esse.

Fuga da Realidade?

A Netflix virou a principal válvula de escape da realidade. Muita coisa para ser vista. Pouca coisa para ser entendida. O volume de obras, de qualidade duvidosa, é imenso. Mas vale como entretenimento. Mas convenientemente, algumas coisas reaparecem misteriosamente, com temas “relaxantes”, só para deixar o momento atual “mais leve”. Filmes como Contágio, Epidemia e até documentários feitos à toque de caixa sobre a Covid-19 estão em cartaz. É clicar e se divertir à beça! Nada de inédito nesses tempos malucos.

Não usa mais o Facebook?

Ouvi muita gente dizer “não tenho mais redes sociais” ou “não tenho mais Facebook”. Faz isso não. Zuckerberg fica triste assim! Cada usuário é como se fosse um filho para ele, entre os 2 bilhões no mundo inteiro. 127 milhões de usuários mensais só no Brasil. Mas hoje, todos os filhos pródigos retornaram. Por menos que gostemos disso, todos ficam rolando as telinhas e lendo as “manchetes” das postagens como quem fuma um cigarro ou olha pela janela sem pensar em nada específico. Porém, essa ação pode durar horas que nos levam a acreditar por alguns segundos (ou para sempre) em Fake News. Nada de inédito nesses tempos malucos.

Os famosos Stories do Instagram formam uma rede social dentro da rede social. Pessoas mostrando sua rotina em casa, com os filhos, os pets ou lembrando de momentos preciosos de meses atrás. Os jovens mostrando como são invencíveis, saindo às ruas com os amigos ou marcando encontros potencialmente perigosos em meio à quarentena, tudo regado às bebidinhas e aos narguilés compartilhados sem nenhum cuidado. Coitados. Todos órfãos das raves, bailes funk, pagodes e afins. Nada de inédito nesses tempos malucos.

Empreendedorismo?

Os botecos, agora na clandestinidade, com entrada pelos fundos, funcionando intensamente. Tal qual na época da Lei Seca nos Estados Unidos. Nada de inédito. Alguns usam do bom e velho jeitinho brasileiro para dar vazão a sua veia empreendedora. Contei uma dezena de bares que agora são “Bar e Mercearia”, “Bar e Panificadora do Zé”, “Bar e Loja de Eletrodomésticos do Silva” e por aí vai. Isso é inédito nesses tempos malucos.

É o final dos tempos? Ou o início de outros tempos mais malucos ainda?

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